ALMA — Robert Musil

de 1 Fevereiro, 2018Fevereiro 5th, 2018armazém, eu

É uma palavra à qual, por mais de uma vez, mas não nos contextos mais claros, já recorremos antes. Por exemplo como aquilo que se perdeu nos tempos actuais ou é inconciliável com a civilização; como aquilo que entra em conflito com os impulsos do corpo e os hábitos do matrimónio; como aquilo que é afectado, e não apenas por repulsa, na relação com um criminoso; (…) como o amor das metáforas em muitas pessoas, e assim por diante. Mas, entre tudo o que é mais próprio desta palavra «alma», o que mais ressalta é o facto de a gente nova a não conseguir pronunciar sem se rir. (…) porque ter uma alma grande, nobre, cobarde, ousada, baixa, é coisa que se pode afirmar; mas dizer simplesmente «a minha alma», isso ninguém faz. É uma palavra típica de pessoas mais velhas, e isso só se pode explicar se aceitarmos que no decurso de uma vida há qualquer coisa que se torna cada vez mais sensível, e para a qual precisamos urgentemente de um nome, mas não o encontramos; até que passamos a usar, com alguma relutância, aquele que antes desprezávamos.

Como descrever então essa realidade? Podemos estar parados ou em movimento, que o essencial não é aquilo que temos à nossa frente, o que vemos, ouvimos, queremos, tocamos, dominamos. Isso é o que está aí, como horizonte, um semicírculo; mas as extremidades desse semicírculo são ligadas por uma corda, e o plano dessa corda atravessa o mundo. À frente, o rosto e as mãos olham a partir dela, as sensações e aspirações passam diante dela, e ninguém duvida de que aquilo que se faz nesse espaço é razoável, ou pelo menos possuído de paixão. Ou seja, as circunstâncias exteriores pedem-nos para agir de uma maneira que qualquer um pode compreender; e quando nós, enredados nas paixões, fazemos coisas incompreensíveis, também isso está, à sua maneira, certo. Mas por mais perfeito, compreensível e acabado que tudo pareça ser, é sempre acompanhado pelo sentimento obscuro de se tratar apenas de uma metade. Falta qualquer coisa nesse equilíbrio, e o homem avança para não vacilar, como na corda-bamba. E ao avançar na vida e deixar atrás de si o que viveu, o que está por viver e o já vivido formam uma parede, e o seu caminho assemelha-se então ao do caruncho na madeira, que pode furar ou recuar, mas deixa sempre um espaço vazio atrás de si. E é nesta terrível sensação de um espaço cego e amputado atrás de todo o espaço cheio, nesta metade sempre em falta mesmo quando tudo é já uma totalidade, que podemos entrever aquilo a que se chama alma.

É claro que ela está sempre presente no que pensamos, sentimos, intuímos, sob as mais diversas formas de sucedâneos e de acordo com cada temperamento. Na juventude, como um claro sentimento de insegurança em tudo o que fazemos, ainda que seja o que há de mais certo. Na velhice, como espanto sobre o pouco que fizemos daquilo que planeámos fazer. Entre as duas, como consolo para o facto de sermos uns tipos danados, fantásticos, fixes, embora nem tudo o que fazemos possa ser justificado; ou então para o facto de o mundo não ser como devia, e assim tudo aquilo que falhámos resultar, apesar de tudo, num compromisso satisfatório. E há ainda aquelas pessoas que, para lá de tudo isto, pensam num Deus que traz na algibeira o pedacinho que lhes falta. Só o amor ocupa um lugar especial no meio disto: neste caso de excepção, a segunda metade cresce. A pessoa amada parece ocupar o lugar onde de resto falta sempre alguma coisa. As almas unem-se, por assim dizer, «costas com costas», e tornam-se supérfluas. É por isso que a maior parte das pessoas, uma vez ultrapassado o grande amor da juventude, já não sente falta da alma, e esta pretensa loucura preenche uma função social meritória.

MUSIL, Robert, O Homem Sem Qualidades (volume I), Alfragide: Dom Quixote, 2008: 257-258