as árvores deixam morrer os ramos mais bonitos

Este espectáculo conta a história de María, uma mulher jovem que deixa o seu país pela metrópole. À sua espera no cais estão um homem e uma mulher que nunca chegam a vê-la. A acção da peça desenvolve-se dois meses mais tarde, enquanto assistimos aos esforços deste casal para se aproximar de María — e do que ela traz — oferecendo-lhe uma casa e um trabalho numa fábrica fictícia.

Um espectáculo do outro estreado a 20 de Setembro de 2019 no Arquipélago — Centro de Artes Contemporâneas, Ilha de São Miguel.

Próximas datas

1 de Abril de 2020
AO TEATRO! Festival, Benedita

Maio de 2020
Teatro Thalia/Festival Temps d’Images, Lisboa

criação
João Leão, Patrícia Moreira
Sílvio Vieira e Sofia Fialho

co-produção
Arquipélago — Centro de Artes Contemporâneas
Festival Temps d’Images

apoios
Fundação GDA, Fundação Calouste Gulbenkian
Polo Cultural Gaivotas | Boavista
O Espaço do Tempo, DeVIR-CAPa
Causas Comuns, Teatro do Eléctrico, ESTC-IPL

Fotografias da estreia no Arquipélago — Centro de Artes Contemporâneas
20 de Setembro de 2019, Ilha de São Miguel

Fotografias de ensaio

sobre o espectáculo
as árvores deixam morrer os ramos mais bonitos é um objecto de natureza teatral vinculado ao cinema e à escultura, afinando-se entre a concretude da narrativa cénica e a sua dissolução em imagem. Nasce no fim de dois anos de pesquisa atravessando não só a esfera da arte mas também a da filosofia, biologia e ciências sociais; sedimentando-se em problemáticas como o binómio função e loucura, a atrofia da ligação com o outro, a ordem social e a hierarquização do corpo. Partindo de três cadernos fundamentais — a Natureza, a Relação e o Mapa — convergimos na ideia de distância e na história de uma mulher afastada do seu país: María.

Dossier de projecto impresso

I — Natureza

A aproximação e afastamento entre homem e animal, a ligação entre antropomorfismo e identidade e o dilema da consciência podem ser derivações da mesma pergunta: que distância separa o homem do animal e da planta?

i) A frase “as árvores deixam morrer os ramos mais bonitos” exprime uma interrogação entre o útil e o inútil: como pode a observação das árvores altas dos Açores — cujos ramos, por estarem à sombra e se tornarem incapazes de fazer a fotossíntese, acabam por morrer — levantar a questão do lugar da arte e da loucura numa sociedade organizada em função do útil?

ii) A antropomorfização de animais, plantas e objectos — ou a teima do sujeito em descobrir-se em tudo o que vê. O indivíduo rodeia-se de si mesmo — identifica-se — num exercício narcísico do qual o antropomorfismo é somente sintoma: desenha caras nas pedras, descobre atitudes humanas nos animais, atribui nomes masculinos e femininos aos objectos e abusa da personificação como recurso estilístico.

1 Herbert Bayer, Diagram of the field of vision, 1930

1 Herbert Bayer, Diagram of the field of vision, 1930

3 Monkey in mirror, in Hours of Joanna the Mad, séc. XVI

II — Relação

Usando do diálogo como ferramenta clássica para o descarnar das relações humanas, contamos a história de uma mulher emigrante arrancada à sua família e essa empresa árdua que é construir vida num país estrangeiro. Necessariamente implícitas na narrativa, descobrimos no abismo eu / outro quatro medidas:

Distância do eu — da empatia à rejeição
Distância certa — intuição
Distância incerta — medo e espanto
Distância paralela — sonho

Estas distâncias descrevem um intervalo. Existem de um ponto a outro, com maior ou menor clareza. Com o eixo central em María, observamos a relação que ela estabelece com o mundo, austero e farpado, procurando trazer ao espaço cénico questões como o medo, a empatia, a violência e o amor.

Sílvio Vieira, Distância do eu, 2017

III — Mapa

Um mapa é a distância impressa, embora também possa conter lugares poéticos e inomináveis — o corpo enquanto lugar, e a cada lugar o seu mapa.

Corpo político — o organismo social
Corpo louco — o desencaixe
Corpo dado — o retorno à Natureza

i) micro
A pele, exposta, é trabalhada enquanto mapa e o corpo enquanto estrutura funcional, moldado e atrofiado pelo que a contemporaneidade requer dele. A escultura disforme corpus separatum evidencia essa distância primeira entre o corpo que nos é dado e aquele que utilizamos, recuperando uma memória: o instante do nascimento.

Marta Raimundo, Esboços para Corpus separatum, 2018

ii) macro
O mapa da cidade, enquanto instrumento de poder, faz-se de quadrados e linhas rectas que agilizam o consumo. Exclui a loucura, os espaços em branco e o inútil. Sufoca a arte e a filosofia, cuja índole exige outra forma e outro tempo. Por baixo do mapa movem-se forças indomáveis para as quais não existem (ainda) edifícios, forças que constituem a linfa vital ao avançar dos tempos.

ficha técnica

as árvores deixam morrer os ramos mais bonitos
1h10 | M/14
criação
João Leão, Patrícia Moreira
Sílvio Vieira e Sofia Fialho
interpretação
Ana Cris, João Leão
Sílvio Vieira e Sofia Fialho
espaço sonoro Diogo Quintela
vídeo e desenho de luz João Leão
assistência Laura Gama Martins
apoio à cenografia Ângela Rocha
agradecimentos
Bruno Bravo, Catarina Rabaça, Cátia Terrinca, Ceci Graterol, Filomena Silva, Francisco Melo Bento, José Garcia, José Saramago, Luca Aprea, Lúcia Marques, Margarida Leão, Maria Duarte, Marta Raimundo, Miguel Ponte, Nélia Martins e Ruy Malheiro