Apesar de tudo sorrir
apesar de tudo não ser pessimista
a maquilhagem só sai no banho
quando ninguém está a ver
onde lágrimas escorregam despercebidas
gosto desta palavra:
lágrima
já lá está uma em cima do ‘a’ tão linda
as palavras não se sabem esconder
vingar na vida, por exemplo
está tudo dito para quem quiser ver

Palavras
saltam de boca em boca e sobrevivem-nos a todos pelos nossos filhos netos e bisnetos
hoje sou eu a carne que lhes dá corpo
amanhã será outro
ontem ouvi o Dimitriádis
estou a tentar
acima de tudo não parar
acima de tudo ter sempre um prego na cadeira
já te ias sentar a comer
já te ias deitar a dormir quando te lembras
é preciso sofrer
é preciso sofrer?
a dor
já dizia a minha amiga
a dor é amiga
musa
queres que me vá embora? — pergunta ela
respondo que sim
mas não
entre lágrimas e sorrisos
prefiro ser feito de lágrimas, que sorrisos é o que toda a gente mostra
e é costume dizer-se que somos o que ninguém vê
“se pudesses ver-me quando estou só com os meus botões”
desculpa
choro e penso o quão bonitas são as lágrimas
quão humano me sinto
quão frágil
um prazer
este pathos de estar nu
sozinho com todos os que também são gente
mas menos gente
que de toda a gente eu existo mais
há eles e depois eu
não, eu e depois o resto
mas o resto, para quem não sabe, não é feito de gente é feito de eus
decido afastar-me
meditar
encontrar-me
voltar
perder-me novamente
oh foda-se
que moderno
versos de três sílabas
não pode ser
o próximo vou escrevê-lo no ar
para ninguém ver

eu vi-o
ele viu-me

não acontece nada
(podia dar uma boa história)
se calhar é isso
não acontecer nada
ceder à velocidade
pastar na superfície
dizer não ter medo do calor, não
dizer não ter medo da beleza, não, de todo
aceitar sim que venham como surpresa
como presente
como “ah, hoje aconteceu-me isto tão giro”
giras são as caras
quando a beleza se faz pequena
quando o toque se faz excepção
o corpo
o amor
o calor
marginais à regra do medo
do número intragável de tão grande que nem cabe na boca
de tanta gente ao mesmo tempo

Hoje ia sendo atropelado
fui escrever para o meio da estrada
não estou a brincar
foi na hora de ponta
pensei que estava a andar de bicicleta e entrei na rotunda
troquei os sentidos pela ideia
vendi-me
rendi-me
tentava encontrar a beleza

alguém buzina

acima de tudo não ser moralista
a moral é para cativos
aos livres ninguém lhes diga o que fazer
“se caminhar na minha direcção não me perco”
e por falar em andar
intrigam-me as pessoas no centro comercial
de todos os sítios onde se anda este é dos que tem menos por onde ir
mas aqui todos parecem saber exactamente o que estão a fazer
andam de loja em loja e pelo meio comem uma sopa e aquele miminho
ainda insisto em olhar nos olhos da pessoa a quem abro a porta
“por quem sois”, digo
teste número 1
falhado
não tento outra vez, era o que faltava
outros as abram
suspiro
vou fazer as malas e partir
amor ódio tanto amor e tanto ódio
o amor fica em casa no quentinho dos lençóis e o ódio espalha-se pelas ruas
o amor é uma preciosidade e tem-se como o cão ou o gato
já os polos estão a derreter porque o frio mudou de casa

Toda a poética fora!
impossível escapar-lhe
ai o meta agora!
foda-se que se foda deixai-me ser poético ó nobres varões de pena e chicote em riste
sou uma criança já a morrer de tão velha
mas só agora
só hoje que acordei com os pés de fora
amanhã já serei espírito livre e contente
e não digo isto ironicamente
quero mesmo ser espírito livre e contente!
respirar
respirar finalmente
meditar
cada coisa a seu tempo
crescer para lado nenhum
continuar deitado
ver o comboio passar
a música preferida a ouvir-se ao fundo
acima de tudo ser optimista
interrompa-se o momento mais solene e triste com o último hit de verão.

Este texto foi escrito enquanto caminhava pela cidade, na noite de 7 dezembro.
Aqui começou a tocar nos meus ouvidos o Hino da Alegria de Schiller e Beethoven.

Sílvio Vieira