Pomes vê, sente, cheira, ouve, desde sempre. Hoje em dia não vê, sente, cheira ou ouve grande coisa para além de pés, mesas-de-cabeceira, pés, pés e mais pés. Habituou-se desde cedo a sentir vento na cara e gotas de chuva nos buraquinhos, o calor das mãos e o cheiro dos pés são prazeres recentes. Traz sempre na cara a mesma expressão de contemplativa pasmaceira, de alguém ocupado apenas do presente e não do passado ou do futuro. “Tristes os preocupados”, diria ela, “que para além do seu próprio peso insistem em carregar-se nos três tempos, com todas as memórias e todos os desejos”.

Nunca sabe onde está, nem quando está, mas isso não a aflige. Aliás, nada a aflige demasiado. É tão pouco apaixonada que me atreveria a acusá-la de não ter coração. Se a espicaço — para ver se a agito! — esconde-se, desconfortável, por baixo de um olhar tímido e modesto e fecha-se ainda mais no seu mistério. É a senhora mais viajada do mundo, mas ninguém lhe pergunte a quantas coisas horríveis já assistiu, não saberia responder. Nem tão pouco poderia dizer grande coisa, infelizmente, sobre as infinitas coisas belas que a Natureza lhe mostrou. O belo e o feio são, para ela, a mesma cor. Quem a quiser escutar deve prestar-lhe toda a atenção, sobretudo nos silêncios. É no meio desses silêncios, nos pontos finais de longas frases em branco, que Pomes vai destapando, pouco a pouco, fantásticas histórias desde o tempo do .

Ela diz:

“De dia devo estar viva, acho. Tudo se mexe em meu redor e sinto-me menos parada, não sei. Devo ser a senhora do mundo porque o mundo gira à minha volta e eu nem preciso de levantar a voz.

Eu espero e tudo o resto desespera. Estou na cidade das perninhas aceleradas, dos olhares cabisbaixos e dos olás quase mudos, das bocas quentes dos cães e das rodas dos carros sentadas em cima de mim num modo esquisito de dizer bom dia… É muito divertido assistir à lufa-lufa desses castiços e empertigados sacos de carne de vários tamanhos e feitios, com pêlo ou sem pêlo — os humanos, digo — sempre do mesmo sítio para o mesmo sítio, por essas estradinhas bem desenhadas com picotado ao meio. Venha uma tesoura cortá-las pelo tracejado e a seguir um pássaro-UHU as cole todas noutro sítio, dobradas e desarrumadas!

De vez em quando ainda vejo um humano a correr e aos gritos, a sair do passeio e a saltar de muro em muro, mas a esse rapidamente os outros deitam olhares desconfiados. O perigo arregala-lhes os olhos já acostumados à rotina da ‘pestana citadina’, como persiana sempre meio-fechada, ainda assim eles preferem ver o já visto e receiam as coisas estranhas. Sair das estradinhas tão rigorosamente desenhadas, sorrir sem motivo, falar alto, cantar na rua ou dirigir-se a um desconhecido como a um amigo são sintomas de loucura, e quem pratica estes desvios deve voltar a si rapidamente, lembrando-se do seu lugar.

Eu percebo, deve ser difícil para eles viver tão apertadinhos, sobretudo quando chegam às caixinhas a que chamam casa e se preparam para dormir, com menos de dois metros a separá-los, todos amontoados em arranha-céus — uma palavra bonita para esconder umas unhas medonhas — com tanta gente à frente, atrás, aos lados, por cima e por baixo. Assim, é importante pensar e viver da mesma forma, para evitar sustos. Ah, e tornou-se importante viver na mesma forma também, porque de todas as formas apenas os quadrados encaixam perfeitamente uns nos outros, só eles preenchem tão eficazmente o mesmo espaço. Isto é, não deixam espaços vazios e por isso não sujam, não incomodam, mas também não permitem que através deles se respire, dance ou grite. Para dançar existem outros quadrados desenhados para o efeito, abertos à noite. Agora é tão forçoso viver quadrado que até já se morre quadrado. Quando morrem são empilhados em gavetinhas por já não haver espaço para tanto morto e porque toda a gente, valha-lhes deus, quer morrer para sempre no sítio onde viveu apenas uns dias. Se soubessem que também de ossos é feita a minha pele, chutar-me-iam com mais reverência! [risos] Enfim, tão depressa nascem como morrem, e vivem a essa velocidade. Eu, como eles, sempre me mexo de cá para lá, mas muito mais devagarinho, sem pressa nenhuma.

Os pés e as mãos na rua bem tentam ensinar-me a voar de vez em quando, mas acabo sempre por cair. São tão pacientes! Todos os dias fazem isto de me atirar ao ar, e eu caio redonda no chão, qual pássaro gordo e cinzento. Ah, e por falar em vento, já lhe disse que as pedras-pomes são primas das flautas? O vento faz-nos cócegas na espinha quando passa, mas como deixa sempre cá dentro uma música feliz quando se despede, ninguém se importa. Aliás, se eu tivesse nariz, inspirava ao final da tarde e só expirava na manhã seguinte, e era capaz de ficar assim, vazia, até a noite se ir embora com o Primeiro Sol.

Pomes de noite, de Sílvio Vieira

Sílvio Vieira

“Durmo mal à noite. Os humanos chamam-lhe sónia, eu chamo-lhe incógnita. O movimento é a minha luz. Através dele, vejo — a planta ilumina a rocha, o animal a montanha, o rio a paisagem e o mar o horizonte. Mas à noite tudo pára, e assusta-me ficar sem vista. Pouco me importa ser uma menina-pedra, essa parvoíce, não peço nem rezo a Ninguém para me dar bracinhos, pernas, olhos de verdade e uma boca para falar, não. Assusta-me, sim, ficar sozinha no meio do escuro. Assusta-me uma noite eterna, que tudo pare de mexer-se de repente e eu deixe de ver, e uma pedra cega é a mais infeliz do mundo, sei-o bem. Como um humano sem mãos para falar.”

Nestes curtos relatos, recolhidos ao longo de meses — passámos muitas horas sem dizer nada um ao outro — Pomes até podia falar de sonhos e desejos, mas saberia quando calar-se porque não sabe mentir. Ver tudo e nada fazer, duas caras da mesma tristeza. Seja como for, e alguém escreva isto no pó, serei o primeiro a mostrar a esta adorável pedra algo que os olhos não vêem e só podem imaginar — a fantasia. Desisto, por agora, de contar a história dela e proponho-me mostrar-lhe a grande alegria de viver, o grande desejo e o grande sofrimento, tudo ao mesmo tempo. Afinal, se lhe dou o sorriso, é justo dar-lhe também a lágrima.

 

Continua…

Pomes de dia, de Sílvio Vieira

Sílvio Vieira

Pomes I

arranha-céu