O contador de histórias padece de um pequeno mal: come, cospe, vomita, transforma segredos. Apraz-lhe descascar refúgios, camada por camada. Leva a vida a arrancar e misturar palavras dele e de outros, de um sítio para outro, e fá-lo de olhos bem abertos, sem pestanejar, de boca caída e dentes à mostra num sorriso que guarda a mandíbula de um predador. Dica: dentes bonitos disfarçam caninos afiados.

Dito isto,

Conheci Pomes antes de a encontrar. Leitores atentos poderão achar pouco sentido nesta frase. Passo a explicar: à minha pedrinha idealizada gostaria de fazer corresponder, por mero capricho, uma pedrinha a sério. Gostava de dar corpo à minha imaginação.

Estou a passear sossegadamente na praia e vejo uma pedra semienterrada na areia. Pego-lhe e ponho-me a observá-la. Redonda e pesada, com a pele esburacada pela água, pelo vento ou, se quisermos ser brincalhões, pela puberdade. Penso para mim: “Pomes não pode ser tão grande, parece muito adulta e menos fofa.” Atiro-a com desdém à areia e sigo caminho. Nem dera três passos e já estava a olhar piedosamente pelo canto do ombro, a sentir remorsos por ter atirado a pedra com tanta displicência.

O leitor vai achar ridículo, mas comecei a ver caras nas pedras. E coitadinha, não conseguia deixá-la assim, abandonada à intempérie. Voltei atrás e peguei-lhe novamente. Não sei como fui capaz de passar por tantos calhaus iguais a ela sem me pôr como louco a apanhar todos por pena. Talvez porque esta pedra se tornou especial para mim no momento em que a agarrei — em alemão, agarrar exprime comoção, embrulho emotivo na garra, na mão. E eu estava certo de também ela me ter escolhido. Estávamos agora ligados pelo fortíssimo laço da adopção.

Enfim, não fosse eu já sensível que chegue, agora também ia chorar por todas as pedras do mundo.

Nisto ouço uma voz, jocosa, ao longe:

voz, de Sílvio Vieira

A MORTE

Um mártir, verdadeiramente. O único grande sofredor, de tal forma desapegado de si próprio que só não se desmancha por estar tão completamente compadecido de todas as coisas. Tamanha é a paixão do nosso Narrador, do senhor de letras, a cada palavra comovendo mil corações.

O NARRADOR

A quem devo agradecer tão caloroso recebimento?

A MORTE

Que enjoativo, bafiento exercício de vida. Tresandas a lágrima seca. Poderá o teu reflexo ser tão gordo que nenhum espelho lhe sirva e às pedras tenhas de dar nome? Surpreende-me não lhe teres desenhado ainda uma cara, tosca e sem nariz.

O NARRADOR

Alegre como sempre. Esta é a Morte, Pomes. Já nos cruzámos algumas vezes.

POMES

Prazer. — a única palavra que proferiu durante todo o encontro, e uma escolha, devo dizer, curiosa.

O NARRADOR

Ela diz que foi um prazer.

A MORTE

Eu ouvi, querido. E não me chames nomes. Bem gostava de ver como vais escrever isto nos teus livrinhos, com as tuas palavras, gavetinhas sensíveis. Nunca dizem uma coisa só, podem dizer tudo e acabam por não dizer nada.

O NARRADOR

Nesses limites encontro espaço bastante.

A MORTE

Acaso já resolveste alguma coisa com elas?

O NARRADOR

Ainda aqui estou.

A MORTE

Sim…

O NARRADOR

Por enquanto? Por entanto encanto.

A MORTE

Até eles arranjarem outra maneira de conhecer.

O NARRADOR

Antes disso já tu “foste com os porcos”, como dizem. O dia em que te engoles inteira, bonito pleonasmo, esse.

A MORTE

Continuarei a ser o destino dos desistentes e outros bichos. Incomoda-te assim tanto ser um dia , outro dia vento, mar, areia e depois ossos dessa mesma pedra? Por prescindires de boca?

O NARRADOR

Bocas. De mil mãos e bocas sou feito, frias e quentes, passadas e presentes, e serei a voz do futuro enquanto houver bocas para contar e mãos para escrever.

A MORTE

E línguas, que da língua fizeram tudo, as cidades, os deuses, o dinheiro, e pariram-te a ti. Ainda assim todos os dias tentam subornar-me com bruxaria e medicamentos, e para quê? Para continuarem a chafurdar nos seus apetites? É-lhes familiar a sensação de correr atrás da cauda, em círculo, embora pequenos achados os agarrem à ilusão de estar a seguir uma linha inédita, da esquerda para a direita, do ontem para o amanhã, cada dia maior. Uma almofadinha a cada nova invenção adia-lhes a queda, embora o precipício não tenha na realidade mais de dois metros, afinal, pouco ou nada se elevaram acima da cabeça. A queda torna-se fatal, então, pela altura do desejo. Um tamanho pretenso estende diante deles o maior abismo.

O NARRADOR

Um abismo cada dia mais estreito e que encarece a tua casa. Estás mais pequena desde a última vez que te vi.

A MORTE

Inventaram-me a mim também. Lisonjeiam-me com tantos significados, encontram em mim tantos propósitos que quase me sinto em dívida. Inventaram a luz e deixaram de procurar-se no escuro. Domesticam tudo, e embora isso possa ser o seu fim, é também um novo início para ti. Nesse dia vou gostar de ti, quando finalmente te desfaças em todas as palavras jamais ditas. Só quando eles deixarem de escrever e nomear poderás conhecer o teu tamanho. Até lá sempre o teu espírito estará rodeado de fantasmas.

O NARRADOR

Uma luta de titãs merece artilharia especial, não concordas? Teria tomado as diligências necessárias se soubesse que vinhas, assim apanhaste-me desprevenido e não poderei continuar a falar contigo.

A MORTE

Tu não estás a falar comigo, idiota. Estás a falar contigo. Sabes demasiado bem o que te diria um espelho se lhe encostasses o ouvido. “As mãos subjugaste pela caneta, os ouvidos pasmaste, os olhos humedeceste, mas todos os dias se esquecem de ti”. Qualquer coisa do género. Está já no recordar o esquecimento, e por isso és condenado a cair todos os dias, uma e outra vez.

O NARRADOR

Poderia pedir à consciência para ser menos implacável?

A MORTE

Certamente. Um interlúdio à abjecta vivência quotidiana, és tu. Se já eles são minúsculos, imagina tu, peregrino do cinzento, que te equilibras tão corajosamente na tangente, na periferia da vida de uns bichos a quem só é permitido viver duas inspirações. Nesse curto fôlego dispõem de ti sem delicadeza, quando lhes apetece rir, chorar — enfim, quando lhes dá a cobiça de sentir o mesmo que os outros — e depois cospem-te, atiram-te ao chão como uma puta usada e voltam-se para o que realmente lhes interessa: comer.

O NARRADOR

Linguagem!

A MORTE

Mais! Estão certos de que estarás lá quando quiserem usar-te novamente.

O NARRADOR

Então!

A MORTE

Ah ah! És uma escarreta, a mesma escarreta, reciclada vezes sem conta por eles e pela horda infinita de filhos deles. Como coelhos, dizem? Fossem os coelhos tão férteis e não estaria o mundo tão sujo.

O NARRADOR

Imundo ficava melhor. Não gostei quando disseste * à frente de uma criança.

A MORTE

Respeito as putas.

O NARRADOR

Ai!

A MORTE

Respeito-as tanto como aos outros coelhinhos. Infelizmente, a elas calhou o mesmo nome daquilo que todos fazem diariamente. Quando estão uns com os outros riem mais alto, porquê? Porque escondem tão mal a cara quando choram? Dizem não ser nada e refugiam-se num segredo tão forte quanto o cristal mais fino, à espera de alguém que lhes pergunte pela segunda vez — à primeira ia parecer mal — ‘o que foi querido’, para poderem enfim desabotoar-se num pranto formidável. (cospe)

O NARRADOR

És demasiado radical, falas com muita raiva. Dizes isso porque sempre estiveste sozinha, nunca sentiste

O calor

Daquele abraço

A MORTE

Eu sou mais fraterna que todos vocês, carpideiras idiotas. Ou pensas que gosto de ouvir as últimas palavras de um morto?

O NARRADOR

Aposto serem esses, sim, os teus momentos mais divertidos. O meu Fiódor escreveu uma vez sobre a frustração de um indivíduo prestes a cometer o suicídio. Nem na morte, queixava-se, lhe acudia à mente uma só ideia bonita para deixar num bilhetinho.

A MORTE

Lembrou-se dela já tarde demais, quando a minhoca lhe entrou no ouvido.

O NARRADOR

(irónico) Devo crer então que ouves os mortos por compaixão, é isso?

A MORTE

Só os homens falam em solidão, imbecil. Tanta palavra palavra palavra… Para mim nada há de mais sublime como a cara deles quando me vêem, como se num rasgo fatídico se tivessem lembrado de qualquer coisa, do gás aceso na cozinha. Finalmente silêncio! De todos os mortais só os homens parecem demorar uma eternidade a calar-se. Essa pedra está cá há mais tempo e não faz tantas perguntas.

O NARRADOR

Não faz porque não pode, não imagina.

A MORTE

Ah, já percebi. Pois tu queres, então, oferecer-lhe a fantasia. A curiosidade que lhe dedicas é jogo teu, eu sei, disfarçado de um interesse que até pode parecer genuíno, e assim te vais esquivando da sensação insuportável de estares com os pés assentes no ar.

O NARRADOR

E assim me vou esquivando

Da sensação insuportável

De estar agarrado ao nada

Diz-me, se eu pintasse tão bem como tu versejas, preferias ver-te retratada numa linha, num círculo, como vapor ou como um sólido bem rígido e firme?

A MORTE

Não tenho tempo.

O NARRADOR

Não dói.

A MORTE

Não percebeste, parvo. Não tenho tempo. Eu sou o Tempo, se quiseres. Olha, podias começar a tratar-me por esse nome.

O NARRADOR

Morte é mais cheio de significados.

A MORTE

És suspeito, herdaste as palavras dos mortos.

O NARRADOR

Mórbida!

A MORTE

E por isso és curto de espírito. O Tempo não tem cheiro, não se vê, não se toca, e acima de tudo não existe. A Morte cheira-se, vê-se, toca-se. Pertence ao Tempo, é um ponto final que se inscreve, ténue, concreto, intermitente, numa frase imensa.

O NARRADOR

Gulosa! Falasses tu com Ele e rápido passarias de ponto final a interrogação. Ah, como serias humana, então, tenrinha como pele de bebé. A pergunta é a foice mais afiada, nunca ouviste? Deves ter conhecido muitos que sucumbiram por terem espetada no corpo uma pergunta.

(pausa)

A MORTE

Se quiseres pedir a um desses para me retratar…

O NARRADOR

Vaidosa!

A MORTE

Cala-te. Pede-lhes para fazer o melhor possível e será sempre poucochinho. (ri-se)

O NARRADOR

Resistem-te uns nas memórias de outros.

A MORTE

Como? Tentei falar com eles ontem. Não responderam.

 

Continua…

Peter Claesz, Still Life with a Skull and a Writing Quill, 1628 (default)

Pieter Claesz, Natureza-morta, 1628

Pomes I

Pomes II

a morte e o narrador