A nuvem condensa em chuva e cristaliza em neve, como o pensamento cai em palavras, imagens e objectos. Vou tentar fazer que chova com a caneta no papel.

Aventuro-me agora na empreitada pela qual esperei mais de quatro meses. Escrevi a primeira parte da Pomes e, ainda na mesma semana, aquela que eu julgava ser a terceira mas que acabou por ser a segunda. Achava na altura que a minha conversa com a Morte havia de seguir-se a uma viagem pela fantasia, com início na praia onde me encontrava. Enfim, uma grande confusão que ainda assim não deve ser desprezada, porque os instintos não devem ser desprezados e se estavam mais perto de mim os argumentos da morte do que estes que habitam estas linhas, parece-me justo seguir essa ordem e não outra que, no fundo, se resumia a uma linha mais suave da luz às trevas, como deve ser. E assim também acabo por respeitar a condição implícita deste conto da pedra-pomes e, no fundo, de toda a escrita — a duração, e as pequenas e grandes mudanças que lhe estão inerentes. O texto seguinte também pode ser lido, na sequência dos anteriores, a par da pergunta “quanto pode mudar em quatro meses?”.

Terminei a primeira parte dizendo que queria mostrar à Pomes algo que ela nunca tinha visto, por não ser dado a ver aos olhos de fora mas aos de dentro — a fantasia. Procurei-a ainda na praia — à fantasia — nenhum terreno seria tão fértil como a vastidão do oceano, pensei. Imaginei-me a passear a pedrita, descíamos a falésia numa mota preta, com umas rodas enormes, a uma velocidade tão grande que a superfície do mar se fazia dura, cimento. Muitas vezes trouxe comigo esta imagem, este arranjo especificamente meu, de uma pequena pedra cuidadosamente sentada no banco traseiro de uma mota gigante presa apenas por um cinto pequenino e vermelho. Perdão, cometi um erro. Disse há pouco que a mota, por ser rápida, andava na superfície da água. Não. Esta é uma mota que anda em cima da água ponto final

E ao andar faz uns arranhões de espuma na pele do mar, como fazem os aviões riscos de fumo no céu.

Procurei e esforcei-me por encontrar a fantasia nos lugares que visitava, mas sabia estar ainda longe. Passaram-se meses e perdi a vontade. Sou eu o Narrador, com N grande, e já tudo me foi contado pelas palavras de todos os que alguma vez escreveram. Se procurasse inspiração no mar, já certamente alguém teria achado nele arranjos mais bonitos e intrincados. Outros certamente se terão lembrado de olhar para o céu e juntar duas palavrinhas que por esta altura já não podiam ser outras. Pequenas expressões que às tantas, por justíssimas razões, se tornaram destinos turísticos.

Decidi fechar-me numa sala que começa por não existir. Curiosamente, o impulso de escrever isto só veio no final de um jantar não mais especial que tantos outros, quando me levanto para recolher a loiça e detenho o olhar na luz da cozinha reflectida num talher. Esta luz, entrecortada pelo cabo da espátula, fez-me parar. E ali fiquei, de pé, três minutos, hipnotizado pelo reflexo daquela luz fria no metal, presumivelmente, frio. Num primeiro momento, abri os ouvidos, ou eles abriram-se, ou os sons entraram sem aviso. Seja como for, para além do reflexo, ouvia chuva ao fundo pela coluna do exaustor, uns barulhos de alguém a andar pela casa e a máquina de lavar estava a funcionar. Mas o som mais longínquo era o da chuva, e de todos os outros e também dos inomináveis, foi esse que se converteu cá dentro em imagem. Dificilmente se pode ouvir chuva e não ver chuva, não sentir chuva, não cheirar chuva. E assim se vão trocando os sentidos como moedas.

Tive de interromper-me na escrita deitada para ir fazer necessidades. Deixar de fora esta informação seria injusto por saber que as necessidades são importantes para o que quero ainda dizer, e por não saber até que ponto se altera o dito e o escrito e o que vem ainda por escrever pelo facto de ter, também, esta necessidade. Escrevi todo este parágrafo sentado na sanita, e tê-lo-ia escrito de forma diferente, e tê-lo-ia dito diferente se estivesse agora de pé, a comer, a subir ou a descer, assim como o leitor o lerá diferente conforme o seu redor e o lugar do próprio corpo — isto é, a posição — e escusado será exaltar a importância do lugar do espírito, da meteorologia interna.

Depois de satisfazer a necessidade primeira, lavei as mãos. O maior erro que talvez tenha cometido depois da minha epifania de há vinte minutos talvez tenha sido este, o de lavar as mãos. Posso dizer encontrar-me num estado de atenção invulgar, e senti com o lavar das mãos uma perturbação indesejada, o suavizar de um relâmpago que me acometeu há pouco com toda a violência. Seria pelo toque frio da água, ou pelo significado atribuído ao acto em si, o de lavar, não sei.

Adiante, então, que tenho medo que esta nuvem clara se dissipe. Estava a descrever uma luz antes de respeitar aos intestinos. Ouvia a chuva, sentia a chuva, cheirava, ainda que menos intensamente, a chuva. De todos os sentidos, o olfacto é para mim o mais primitivo por me parecer o mais estéril em significados. É pena, que por alguma coisa temos narinas e o nariz não tem uma expressão assim tão pequena na nossa cara. Presume-se que este não tenha desaparecido porque partilha também a função de respirar, e desse esquecimento ninguém prescinde. Cheirava, então, tenuemente, a chuva. Fechava os olhos, abria-os e voltava a fechá-los. Procurava a melhor posição, a orientação certa dos sentidos com um só desígnio — virá-los para dentro. Reparei que de olhos fechados de todo se me ia o equilíbrio, só não caía porque a coxa direita pulsava com discretos e intermitentes golpes de força. Perguntei-me porque não fazia também este trabalho de compensação a coxa esquerda, e aí apercebi-me do meu desequilíbrio lateral. Estava inclinado para o lado direito, o que não explicava, contudo, o esforço que fazia a planta do pé esquerdo e um músculo qualquer que não tenho a destreza de precisar na zona do joelho esquerdo. Estaria inclinado, ao mesmo tempo, para ambos os lados? Não estava a perceber nada. Concluo, na modesta extensão do saber de mim, ter um corpo especialmente desarranjado no particular, e que só se mantém de pé pela força inerente das estruturas maiores, que contêm as mais pequenas. Como o esparguete, fraco sozinho e forte juntinho. Até podia fazer uma anedota com o corpo social mas  já fiz.

Nestas pequeninas contracções musculares, nestas ligeiras dores apenas perceptíveis no silêncio, tive a epifania da fantasia. Esta atenção mostrou-me não ser preciso procurar mais além do osso. Como se diz… tutano? Costuma falar-se em tutano como metáfora para o “perto mas longe”, essa profundidade difícil. Pois bem, atrevo-me a dizer que nesse fundo se encontram todas as distâncias. No tutano se encontram todas as distâncias. Foi esta a epifania do talher. Soube ali, de pé, poder fechar-me sozinho num quarto, numa cela escura, e ainda assim conseguir esvaziar-me em tinta. Estou a fazê-lo agora, e experimento-o, creio que pela primeira vez desde há demasiado tempo, com caneta no papel. Há qualquer coisa neste acto de escrever no papel, na persistência — também muscular — na duração, na sensação, que parece fazer maior justiça ao próprio acto de pensar. Justo é a palavra certa. Escrever assim parece ser mais justo, não com o pensamento todo, mas com a estreita forma como este se disciplina em palavras ainda dentro da cabeça (o lugar designado para o pensamento, e uma convenção que me interessa pouco atacar aqui). Digo estreita por ser essa — a cabeça — a arena da primeira crueldade. Espreme-se o pensamento numa coisa pequena, conhecida, e logo se perdem vitaminas. E se, depois disto, escrever no papel for uma segunda tradução, segunda crueldade, escrever num teclado e num ecrã será uma terceira, e no quem em cada uma delas se ganha em ordem e lógica, também se perde, infelizmente, algo de instinto, subtileza, pormenor, sujidade, humanidade.

Voltando ao momento presente, àquele momento estranho e sem tempo onde senti, como dizia antes de me interromper, que podia fechar-me dentro de quatro paredes escuras, herméticas, e ainda assim teria por onde escavar, ainda assim teria por onde ver sem, contudo, me ser dado ver nada. Este lugar remoto, sem paisagem, sem pessoas, sem nada para ver, ouvir, tocar, cheirar. Tento tocar na parede escura e sinto-a afastar-se — mentira, não sinto nada, nada acontece. Sei que a parede é escura, mas não lhe consigo adivinhar a cor, é a mesma cor impossível que se vê de olhos fechados. Completa solidão. Este vácuo é apenas habitado por mim, pelo meu passado e pelo meu futuro presente — este futuro habita-me e por isso não o coloco à minha frente.

Este pretexto para dizer o quê? Quando antes procurava levar-te, Pomes, pelos cantos alegres e tristes da fantasia, pensava sempre numa viagem. Passávamos por sítios cheios de cor e formas indizíveis. Tínhamos a pele sempre arrepiada. Imaginei até um grande monstro verde, de textura aveludada, com uns tentáculos geométricos, e uma boca, sobretudo a boca, um enorme buraco, pode dizer-se que todo ele era boca. Mas nem este monstro consigo ver tão claramente como o via há meses, já só o vejo nos pormenores e nas cores garridas, mas quando tento afastar-me para o ver todo desilude-me ver a mesma imagem que milhões de pessoas vêem quando se lhes pede para imaginar um monstro, por já conhecerem monstros da televisão. A cabeça encolhe, enruga-se em atalhos, arruma-se por sua vontade, e nisto é grosseira e pouco criteriosa, infelizmente. Facilita, sim, mas não sem destruir. Seria preciso desenhar um monstro para criar um novo monstro, e para isto eu só teria de deixar fugir a caneta para sítios inesperados. Aqui difere o desenho das outras artes: a mão sem perícia e pouco treinada desobedece, descontrolada, aos desígnios de quem a comanda, e daí podem sair boas surpresas. Permita-se o dono ser passeado pelo cão. Seja isto desculpa ou não, para desenhar um novo monstro, os desvios da caneta e os tropeços libertar-me-iam dessa imagem banal que de outra forma mais perfeita, prodigiosa e técnica, passaria incólume para o papel. Dessa incapacidade de tradução que é só minha nasce um monstro verdadeiramente meu. E por ser meu não quero que o vejas.

Assim, Pomes, não te mostro nada e não te levo a lado nenhum. Seria uma tristeza para mim ver-te comer do mesmo prato e beber do mesmo copo. De onde se come e bebe o mesmo não se pode esperar carne diferente, entendes? Daquilo que beberes e comeres, não me contes, deixa-me ser eu a limpar com o dedo esses salpicos, se o quiser. Eu farei o mesmo, por uma questão de respeito pelas nossas matérias constituintes, sobretudo as discordantes.

Percebo como pode ser aterrador para ti, uma pequena pedra-pomes a quem foram dados muitos olhos e nenhuma boca, encontrares-te. Fui impiedoso ao instigar-te a procurar onde os olhos não vêem e as mãos não chegam, mas já te tinha dito que com os sorrisos vêm também as lágrimas…

– Onde começar? perguntas tu.

Aí não és diferente dos outros.

Começa por esses buraquinhos, esses buraquinhos são um mundo.

Pomes I

Pomes III

a fantasia