porque coisificamos?

de 12 Novembro, 2017 Maio 11th, 2019 arte, espírito, etimologia, linguagem

Este texto é inspirado no capítulo «O labor do nosso corpo e o trabalho das nossas mãos», da obra A Condição Humana de Hannah Arendt.

Olá.

Estava aqui a pensar no porquê de escrever disciplinadamente o meu pensamento, sendo que o meu pensamento é uma grande bagunça – não segue ordens, nem regras, nem vírgulas, nem pontos de exclamação – e sendo também que ninguém o ouve, ou vê ou sente. É invisível. Não se toca, nem se agarra. A menos que se escreva. A menos que se fale. A menos que se represente. Digo meu pensamento porque é o único que conheço do lado de dentro, mas suponho ser assim para todos: uma grande confusão de ideias, frases e imagens. Como coisificar o que vai no nosso “espírito vivo”?

Hoje trabalhar inclui tudo o que se faz (e o que se é) — YOU ARE WHAT YOU DO — quer sejamos canalizadorx, escritorx, pedreirx, filósofx, cabeleireirx, etc. Venha o produto da cabeça ou do corpo, ele é trabalho e raramente se ouve a palavra labor. No entanto, o que hoje é tomado pela mesma coisa, antes da era moderna possuía significados diferentes.

“(…) todas as línguas europeias, antigas e modernas, possuem duas palavras de etimologia diferente para designar o que para nós, hoje, é a mesma actividade, e conservam-se ambas apesar de serem repetidamente usadas como sinónimas.”

Porque é que não se fundiram as duas? Assim, teríamos que trabalorar para sobreviver, com as «mãos» ou com a «cabeça». Na origem das palavras, LABOR tem conotação de dor e atribulação, lida agrícola executada por servos; e TRABALHO é o produto do artífice, conseguido não necessariamente com esforço, mas sim com talento e habilidade.

O labor das nossas mãos é facilmente detectado pelos olhos e, essencialmente, pela utilidade. Acho que se merece dizer que por utilidade entende-se também dinheiro. O trabalho intelectual não possui utilidade nenhuma e, aqui, continuamos na eterna questão da razão pela qual existe a Filosofia, a Literatura ou a ARTE. Hannah Arendt fala disto e de mais muito bem:

“Embora a sua origem possa ser encontrada na Idade Média, a distinção entre trabalho manual e intelectual é moderna e tem duas causas bastante diferentes, ambas, porém, igualmente características do clima geral da era moderna. Uma vez que, nas condições modernas, toda a ocupação deveria demonstrar a sua «utilidade» para a sociedade em geral, e como a utilidade das ocupações intelectuais se tornara mais que duvidosa dada a moderna glorificação do trabalho, era natural que também os intelectuais desejassem ser considerados membros da população trabalhadora. Ao mesmo tempo, porém, e em contradição apenas aparente com este facto, a necessidade e a estima da sociedade em relação a certas realizações «intelectuais» aumentaram de modo sem precedentes na nossa história, com a excepção dos séculos de declínio do Império Romano.”

Porque raio continuam os intelectuais e artistas desconsiderados da classe trabalhadora se o seu trabalho nos é necessário? Quem é mais «importante» (ou «útil»)?!

A matéria do trabalho dos intelectuais é: a palavra, o pensamento, o discurso. Ao “espírito vivo” eles pertencem e não às mãos que produzem. Se não escrevêssemos os pensamentos, se os discursos não fossem ouvidos e assistidos, estas 3 unidades da vida humana não existiriam. O trabalho manual, no sentido mais literal, concreto, e fácil para nós, existe porque são usadas as mãos, as pernas e os pulmões. O trabalho intelectual durante muito tempo não teve o mesmo protagonismo que o trabalho manual, pois no intelecto não existe artefacto físico. É por isso que coisificamos os pássaros do espírito vivo em livros, quadros, músicas, poemas, esculturas…

Antonin Artaud, ilustração retirada do livro Works on Paper

Antonin Artaud, ilustração retirada do livro Works on Paper

Referências
ARENDT, Hannah, “O labor do nosso corpo e o trabalho das nossas mãos”, A Condição Humana, Lisboa: Relógio D’Água, 2001, 107-117