Quanto mais se estuda a origem e proveniência das coisas, mais se encontram elementos universais nas coisas locais.
Yo-Yo Ma, violoncelista e compositor

Machado de Olduvai, 1,2 – 1,4 milhões de anos

O fazer e o dizer, primeiro o gesto e depois a palavra

“O machado pode igualmente ser a prova de algo ainda mais notável: a utilização da linguagem. Com efeito, esta ferramenta de pedra lascada pode conter o segredo da fala, na medida em que pode muito bem ter sido a fazer coisas como esta que aprendemos a falar uns com os outros. (…) Os cientistas observaram o que acontece neurologicamente quando um instrumento de pedra é construído. Com surpresa, verificaram que as áreas cerebrais usadas na tarefa se sobrepunham consideravelmente às usadas quando se fala.”

Renas nadadoras, 11,000 a.C.

A origem da arte como impulso religioso

“Na arte deste período vemos os seres humanos tentarem entrar em pleno fluxo da vida, para se tornarem parte da existência animal que os rodeava, de modo que não fosse apenas para a dominar ou obter êxito na caça. Era mais do que isso. Era realmente o desejo de estar e sentir-se à vontade no mundo a um nível mais profundo, e isso é, de facto, um impulso religioso — sentir-se em casa no mundo. Muitas vezes tendemos a identificar a religião como o não estar em casa no mundo em que se habita, como se a coisa verdadeira estivesse algures nos céus; e contudo, se olharmos para a religião e para um conjunto de temas comuns às grandes religiões, trata-se, pelo contrário, de saber como viver aqui e agora, e como fazer parte deste fluxo de vida.
Dr. Rowan Williams, antigo arcepisbo de Cantuária

Ponta de lança de Clóvis, encontrada nos EUA, Arizona, 11,000 a.C.

A Idade do Gelo e as grandes migrações continentais: como chegou o homem à América pela primeira vez?

“Há cerca de 40,000 anos, humanos como nós espalharam-se desde África, por toda a Ásia e Europa, atravessando mesmo o mar para a Austrália. Mas nenhum ser humano chegara às Américas. Tiveram a sua oportunidade graças às enormes mudanças climáticas. Há 20,000 anos deu-se uma intensificação da Idade do Gelo, que reteve uma grande quantidade de água em camadas de gelo e glaciares, originando uma grande descida dos níveis do mar. O mar entre a Rússia e o Alaska, o estreito de Bering, tornou-se uma ponte larga e fácil de transpor. Animais como o bisonte e a rena passaram para o lado americano, e os caçadores seguiram-lhes os passos.”

Pilão em forma de pássaro, Pápua Nova Guiné, 6000-2000 a.C.

A agricultura e o sedentarismo como vantagem competitiva

“Tivemos de competir com outros animais para obter comida. Quando não podíamos competir, tivemos de obter comida de um modo mais trabalhoso, a partir de sementes de cereais ­indigestas se comidas cruas — e que tivemos de amassar e cozinhar para obter pão. E deitámos mão aos tubérculos maiores e tóxicos, como o inhame e o taro, que têm de ser curados e cozinhados antes de poderem ser ingeridos.”
Martin Jones, professor de Ciência Arqueológica da Universidade de Cambridge

Há mesmo quem aponte a invenção do fogo e da agricultura como as condições fundamentais para a sobrevivência e crescimento da espécie humana. A agricultura sedentarizou o ser humano, e foi ela que permitiu o surgimento das primeiras cidades-estado.

os amantes de Ain Sakhri, Judeia, perto de Belém, 9000 a.C.

Tempo livre

A agricultura trouxe segurança, estabilidade, bem como uma nova ideia de tempo — o futuro a médio prazo pela dependência das estações.

“Os nossos antepassados passaram a ter tempo para reflectir e criar. Criaram imagens que celebram elementos chave do seu universo em mudança: comida e poder, sexo e amor.”

“Os seres humanos são emocionalmente sofisticados pelo menos desde há dez mil anos, quando esta escultura foi feita. De um lado, vemos o longo abraço e duas figuras. Do outro, vemos um pénis e uma vagina; e de outro ângulo ainda, os seios — parece imitar o próprio acto de fazer amor, ao mesmo tempo que o representa. Andamos à volta da escultura e o objecto desdobra-se em tempo real.”
Marc Quinn, escultor britânico

Estatueta maia do Deus Milho, 715

A domesticação da Natureza: o Génesis a partir do Milho

A mais famosa epopeia de todo o continente americano, o Popol Vuh, conta o mito da criação a partir do milho e foi transmitida por tradição oral até ser fixada por escrito no século XVII.

“Este é o começo da criação dos humanos e da busca dos ingredientes do corpo humano. (…) então falaram, o criador, o progenitor, o formador, o modelador — e a soberana serpente emplumada. Procuraram e descobriram o que era preciso para a carne humana. E foi quando encontraram a matéria-prima do alimento, e então o milho branco e amarelo estava no chão. E depois deram voz à criação do nosso pai-mãe, com milho amarelo e branco como carne, alimento para os braços e pernas dos nossos primeiros pais, as quatro tarefas humanas.”
Popol Vuh

“O milho está sempre presente e salta qualquer barreira de classe ou identidade. Toda a gente o bebe e come, desde o mais rico ao mais pobre, do mais ao menos nativo, sendo que nos une mais do que qualquer outra coisa. A cultura do milho tem de enfrentar dois novos problemas, sendo o primeiro o seu uso como biocombustível, o que fez aumentar os preços. O outro diz respeito ao milho geneticamente modificado. É uma coisa quase pessoal e religiosamente ofensiva, porque se está a brincar com Deus. Usar o milho para lá da alimentação e do culto, por exemplo, para abastecer um automóvel, é um assunto altamente controverso.”
Santiago Calva, cozinheiro

As sementes que temos hoje, assim como os animais que nos rodeiam, fazem parte de uma linhagem de milhares de anos. Esta permanência, imortalidade pelas gerações, confere o valor divino que tantas culturas atribuem à Natureza.

“O hábito de ver as colheitas que nos sustêm como algo de sagrado, gerado há cerca de 10,000 anos, em todo o mundo, continua teimosamente enraizado.”

Panela Jōmon, 5000 a. C.

O fascinante fenómeno da invenção simultânea

“Tal como a escrita, a olaria parece ter sido inventada, em todo o mundo, em diversos lugares e em épocas diversas.”

A escrita parece ter surgido por volta da mesma altura em vários lugares do mundo, e o mais interessante é observar como, na altura em que surgiu, a comunicação entre alguns destes povos não existia. Uma invenção surge num povo completamente isolado e que, ainda assim e sem o saber, caminha no mesmo sentido que os outros.

“À medida que novos Estados e novos modos de organização comercial emergiram, a cunhagem da moeda começou a surgir. De uma maneira fascinante, aconteceu de modo independente em dois lugares diferentes do mundo quase ao mesmo tempo.”

Placa da sandália do Rei Den, 2985 a. C.

Guerra, união e pátria

“[os faraós egípcios] perceberam, tal como os dirigentes mundiais ao longo da história, que nada une mais uma nação e o seu povo do que uma guerra contra um inimigo externo, quer o inimigo fosse real ou inventado. Por isso, a guerra desempenhou um papel chave na consolidação do sentido de identidade nacional dos egípcios.”
Toby Wilkinson, arqueólogo

“É uma estratégia infelizmente bastante habitual. Ganham-se os corações e as mentes do povo levando-o a acreditar em ameaças exteriores, mas as armas com que se esmagam os inimigos também servem para esmagar a oposição interna. A retórica política da ameaça externa é apoiada por uma severa política interna.

Estandarte de Ur, 2600-2400 a. C.

O excedente de produção e o surgimento das classes

Por haver excedentes surgem as classes, porque as pessoas podem viver à custa do trabalho de outros, coisa que era impossível nas pequenas comunidades agrícolas onde toda a gente trabalhava. Depois temos o aparecimento de uma classe sacerdotal guerreira, de guerra organizada, e uma espécie de Estado, que é realmente a formação de uma nova forma de poder. Todas estas coisas vão juntas. Não pode haver divisão entre ricos e pobres quando toda a gente produz a mesma coisa; só quando há excedentes. Quando uns produzem e os outros vivem disso surgem as classes e um sistema de poder e domínio.
Anthony Giddens, sociólogo

O excedente é, no fundo, o que sobra do necessário à sobrevivência dos produtores. Colho 500 batatas mas só como 100, as restantes 400 são o que posso vender. As classes surgem neste momento em que o homem produz mais do que precisa para sobreviver, e o monopólio desse excedente comercializável acentua as divergências. Os sortudos com os solos mais férteis e perto dos rios, por exemplo, produzem mais, vendem mais, e rapidamente se tornam donos do mundo. São estes os mesmos que já não precisam de sujar as mãos com terra e põem outros a fazer esse trabalho, e isso deixa-lhes tempo para pensar, para escrever, e por aqui se adensam ainda mais as desigualdades no acesso à cultura, à educação, e a tudo o que isso implica.

Sinete do Indo, 2500-2000 a. C.

Ordem: a arquitectura como instrumento de poder

“Quando se olha um terreno com poucas limitações, sem muitos edifícios, como uma espécie de papel em branco, a primeira coisa que fazemos — porque o queremos dominar — é desenhar uma grelha. E uma grelha é uma forma de posse, uma forma de impor ordem.”
Richard Rogers, arquitecto

Relevos de Lachish, 700-692 a. C.

Refugiados: o rasto da guerra

“Vi campos de refugiados por todos os Balcãs e, francamente, nunca consegui evitar que as lágrimas me viessem aos olhos, porque o que via era a minha irmã, a minha mãe, a minha mulher e os meus filhos. Vi sérvios expulsos por bósnios, e bósnios expulsos por croatas, croatas expulsos por sérvios… Vi ainda o mais infame de tudo, os refugiados ciganos, um grande campo de refugiados, talvez 40 a 50 mil, a cargo do meu exército, a NATO. E ficámos a olhar enquanto as suas casas eram queimadas e eles eram expulsos dos seus lares. E isso fez-me sentir não só desesperadamente triste, mas também envergonhado. O que é verdade, e o relevo mostra, é o carácter imutável e inalterável da guerra. Há sempre guerras, há sempre mortes, há sempre refugiados. Os refugiados são uma espécie de destroços e carga deitada ao mar. E são abandonados quando a guerra termina.”
Lorde Ashdown, soldado, político e diplomata

Tabuinha antiga escrita, 3100-3000 a. C.

A escrita: da contabilidade à criação da ficção

“Quase todos os novos dirigentes descobriram que, a par da utilização da força militar e da ideologia oficial, se queremos dominar grandes massas temos de o fazer por escrito.”

Os elementos principais de governação dos primeiros estados contam-se pelos dedos: poder militar, poder económico (sistema de classes e contagem de rações), ideologia oficial, lei (onde entra a escrita). A escrita começou por ser do domínio da contabilidade e administração, só muito mais tarde da literatura.

“Existem duas áreas em que [a escrita] faz toda a diferença na história da espécie humana. Uma é o pensamento elaborado. Há um limite para o que se pode fazer com a oralidade. Não se pode fazer alta matemática ou outras formas complexas de argumentação filosófica sem poder passar isso a escrito para ser lido. Por isso parece-me desadequado pensar a que a escrita é apenas um modo de registo, para o futuro, de factos passados e presentes. Pelo contrário, é muito criativa. Mas há uma segunda coisa acerca da escrita que é tão ou mais importante: quando escrevemos não fazemos apenas um registo do que já existe, criamos novas entidades — dinheiro, companhias, governos, formas complexas de associação. A escrita é vital para todas elas.”
John Searle, professor de Filosofia da Universidade da Califórnia

Esta ideia de escrita como criadora de identidades relaciona-se com a ideia de ficções proposta por Yuval Harari em Sapiens. São estas ficções/invenções que permitem ao homem cooperar em grandes números (aos milhões) e distanciar-se dos outros animais. A partir de um certo número, os grupos de animais — nos bandos de macacos esse número não vai muito para lá de 100 — tendem a dividir-se por já não ser possível a manutenção das relações necessárias à cooperação. A grande vantagem do homo sapiens foi a sua capacidade, proporcionada em grande parte pela linguagem (falada e escrita), de cooperar em massa, imaginando colectivamente coisas como o dinheiro, as leis, o sistema de classes, as nações, a religião, o entretenimento, etc. Estas ficções, onde podemos encontrar também os maiores flagelos sociais, são a cola das sociedades humanas.

Moeda de ouro de Creso, 550 a. C.

Dinheiro e confiança

“Em sociedades de pequena dimensão não há necessidade de dinheiro. Confia-se nos amigos e nos vizinhos, nas trocas de trabalho, alimento e outros bens. A necessidade de dinheiro cresce quando lidamos com estranhos que talvez nunca mais vejamos e em quem não confiamos. (…) A confiança era o elemento chave de qualquer cunhagem. [Os lídios] perceberam que a resposta era o Estado cunhar moedas de ouro e prata pura, de peso idêntico, e que seriam de absoluta confiança quanto ao seu valor.”

Lontra-cachimbo, 200 a. C. – 100 d. C.

Tabaco: charuto ou cachimbo?

“O tabaco foi primeiro cultivado na América Central e do Sul, e fumado, enrolado em folhas de outras plantas, como um charuto. No Norte, de clima mais frio, não havia folhas de enrolar que aguentassem os longos invernos, e os fumadores tiveram de descobrir outra maneira de fumar o tabaco, e  fizeram os cachimbos. A linha divisória entre charuto e cachimbo teve origem no clima.”

Sobre os animais esculpidos nos cachimbos:

“Existe toda uma cosmologia e teologia que acompanha os cachimbos. São encarados como seres vivos, e tratados como tal, e não como meros objectos, ou como objectos sagrados, e que se tornam vivos e poderosos quando o fornilho se une à boquilha. Por exemplo, se um cachimbo é feito de pedra vermelha, é tido como sendo o sangue e os ossos do búfalo. Há rituais e iniciações e enormes responsabilidades em ser detentor de um cachimbo.”
Dra. Gabrielle Tayac, conservadora do Museu Nacional do Índio Americano

“Os europeus descobriram o fumo muito mais tarde, no século XVI. Fumar tabaco depressa se tornou menos uma religião do que um prazer, se bem que desde o início se ouvissem críticas. Nenhum aviso sobre saúde pública está à altura da verve do notável Counterblaste to Tabacco, publicado pelo rei Jaime I.”

Buda sentado de Gandhara, 100-300

As grandes religiões

“Todas as religiões se debatem com uma questão central: como pode o infinito, o sem-limite, ser apreendido? Como podem os seres humanos aproximar-se do outro, do divino? Alguns tentam realizá-lo pelo canto, outros pela palavra, mas a maior parte das religiões recorreu às imagens para dirigir a atenção dos crentes para o divino. É mais do que extraordinária a coincidência de que, na mesma época, o cristianismo, o hinduísmo e o budismo começassem a mostrar Cristo, os deuses hindus e Buda sob forma humana. Coincidência ou não, foi nessa altura que as três religiões definiram as convenções artísticas que ainda hoje vigoram.”

“As religiões que hoje sobrevivem são aquelas que se espalharam e mantiveram pelo comércio e pelo poder. É profundamente paradoxal que o budismo, religião fundada por um asceta que desprezava o conforto e a riqueza, se desenvolvesse graças ao comércio internacional de bens de luxo. Com esses valiosos bens, como a seda, iam monges e missionários.

“(…) um paradoxo universal: ser necessária grande riqueza material, adquirida por uma intensa relação com os assuntos mundanos, para construir monumentos que nos inspirem a abandonar a riqueza e a deixar o mundo.

Buda, o desperto

“O Buda histórico foi um príncipe da região a norte do Ganges, no século V a.C., que abandonou a sua vida de realeza para se tornar um asceta errante, esperando compreender e depois superar as raízes do sofrimento humano. Depois de muitas experiências, sentou-se por fim debaixo de uma figueira-dos-pagodes e meditou, sem se mover, durante quarenta e nove dias, até que por fim atingiu a iluminação, ou seja, a libertação da cobiça, ódio e ilusão.”

“Os praticantes interiorizam a imagem de Buda primeiro olhando-a e depois trazendo-a para dentro de si como uma espécie de imagem mental. E depois meditam nas qualidades de Buda, no corpo de Buda, nas suas palavras e na sua mente.”
Thupten Jinpa, monge e tradutor do dalai-lama

A palavra ap(ego)

“Na escultura, os dedos de Buda substituem-se aos raios da roda e ele está a «pôr em movimento a roda da lei», a Dharmachakra, para os seus seguidores, os quais, mais tarde, serão capazes de renunciar aos estados materiais da ilusão, do sofrimento e do egocentrismo. Alcançando um estado de beatitude suprema, o nirvana. O Buda ensina que: apenas o tolo se pode deixar enganar pelo espectáculo externo da beleza; para onde foi a beleza quando os ornamentos são retirados, as jóias removidas, as vestes postas de lado, e as flores e as grinaldas murcham e morrem? O sábio, vendo a futilidade de tais feitiços e ficções, olha-os como um sonho, uma miragem, uma fantasia.”

Hinduísmo: Deus presente

“Os hindus vêem a deidade como um todo, como Deus presente. Deus pode manifestar-se em qualquer lugar, por isso a imagem física pode ser uma grande ajuda para alcançar a presença de Deus. Podemos ter a imagem em casa. Os hindus convidam Deus a manifestar-se nesta forma de deidade, acordam-na de manhã oferecendo-lhe doces. A deidade tem de ser deitada numa cama à noite, erguida na manhã seguinte, banhada em água quente com manteiga de búfalo, mel e iogurte, vestida com um fato de seda, feito à mão, ornamentada com belas flores e preparada para o culto diário. É um modo muito interessante de praticar a presença de Deus.”
Shaunaka Rishi Das, sacerdote hindu e director do Oxford Centre for Hindu Studies

Zoroastrismo

“Zoroastro é o primeiro profeta no sentido em que dizemos que Moisés e Maomé o foram. Ninguém sabe ao certo quando e se viveu, mas se existiu de facto, provavelmente viveu nas estepes da Ásia Central por volta de 1000 a.C. Os ensinamentos de Zoroastro têm muito de familiar a quem tenha sido educado como judeu, cristão ou muçulmano. Zoroastro foi o primeiro profeta a dizer que o universo é o campo de batalha entre as forças do bem e do mal. Foi o primeiro a ensinar que o tempo não gira num ciclo interminável, mas que terá um fim — e que haverá um fim dos dias e um juízo final. Todas estas noções passaram para a corrente abraâmica do judaísmo, do cristianismo e do islão.”

Pintura da Princesa da Seda, 600-800

A lenda da Princesa da Seda: o maior roubo tecnológico da história

“Era uma vez, em tempos que já lá vão, uma bela princesa que vivia na terra da seda. Um dia, o imperador seu pai disse-lhe que ela devia casar com o rei distante da terra do jade. O rei de jade não sabia fabricar seda, porque o imperador guardava o segredo só para si. E então a princesa decidiu levar a seda como presente para o seu novo povo. Pensou num artifício, escondeu tudo o que era necessário, os bichos-da-seda, as sementes de amoreira, tudo, no seu real penteado. Esta, meu bem-amado, é a história de como Khotan obteve a seda.”

“A importância histórica da Rota da Seda é quase impossível de exagerar, em matéria de movimento de pessoas e bens, de transporte de invenções e ideias e, claro, de propagação de religiões. Seja o budismo da Índia para norte e para a China, a leste, ou o avanço do islão na Ásia, tudo passa pela Rota da Seda.”
Colin Thubron, escritor de viagens e romancista

“Interessa-me em especial como viajou a música. As gravações só têm cem anos, por isso temos de pesquisar a tradição oral, e a iconografia nos museus e as histórias, para termos uma ideia de como as coisas iam e vinham, tanto os objectos materiais como as ideias. Quanto mais se estuda a origem e proveniência das coisas, mais se encontram elementos universais nas coisas locais. É algo que dá que pensar, mas de facto tudo se reduz a objectos comuns, histórias, fábulas e materiais; e a seda é uma dessas histórias.”
Yo-Yo Ma, violoncelista e compositor

McGREGOR, Neil, Uma história do mundo em 100 objectos, Lisboa: Temas e Debates, 2014