I

Somos habitantes de universos soltos dentro de nós. Uma linha ténue feita de antimatéria tenta suportar o peso do nó que não se desentrelaça.

II

A crosta que se criou pela salinização do tempo, desfoca o fluir dos dias – não estala. Respiração entrecortada – o soluço da ruptura. Um véu sobre um corpo nu. Os véus servem para definir o que é a massa escurecida do desnudo – daquilo que é o tudo igual a Tudo.

III

Investimos no corpo do outro porque queremos, desesperadamente, chegar até nós. Convite de nós a nós? Ansiamos pela dilatação, pelo preenchimento do Tudo que aponta em milhares de direcções. Não temos capacidade física de alcance. Depois há a consciência do encarceramento e a necessidade de distensão, buscamos o outro por interesse, para nos continuarmos a nós. Sem piedade. Pena nenhuma. Esburacamos desprovidos de dó as Entranhas de algo que nos é alheio numa procura incessante pela coerência que não temos. Justiça? Encontramos sempre a mesma coisa e procuramos sempre a mesma coisa.

III E MEIO

Ah! E abortamos sonhos:

todos os dias.
Não faças barulho.
Quebramos toques e passos.
Ninguém pode saber.

IV

A Imperfeição é inegável – sugamo-nos a cada lapso de Percepção. Só percepcionamos por descuido, distracção (verdadeira Atenção = Tensão?). Paramos, tensionados. E se a tensão for o encontro harmonioso de forças opostas e não uma tentativa constante de aniquilação do impulso inverso? E se coexistirem. Só. Numa fricção prazerosa de transe, como quem respira devagarinho e se activa (motiva?). A vida é um debruçar permanente num precipício de vertigem no qual o centro é empurrado por uma força abrupta que impede a queda. Por oposição, o corpo vai descaindo na resignação de um viver que não quer. A sobrevivência advém deste bloqueio. A Terra treme pouco porque não pode tremer mais. Vai aliviando, com um vigor suave, a distorção de um impulso reprimido.

V

Uma página completa causa turbulência, dentro: temos de descobrir (de criar) o espaço que podemos nela ocupar. Será preciso fazer força para abrir fendas ou basta um identificar a matéria e dar-lhe destaque (usá-la?)?

VI

Uma página em branco: perdemo-nos em tanta liberdade, ofuscados, sem saber o que fazer. Tanto espaço para quê afinal:

arena – lugar onde o espaço se adquire a si próprio. Estamos a mais, não pertencemos àquele Imenso. Sujamos: tão-somente.

VII

A Surpresa é o gerador mais eficaz de Periferias: ‘- Agora reconstrói-te num novo centro sem poder apagar a luz. Estás abalado e estão todos a ver-te, idiota. Arrastas lacerações e não sabes até onde podes chegar = Infecção. Está tudo bem. É só o Pus dos dias.’

VIII

Por que é que já não somos enterrados em valas comuns? Até na morte se constroem espaços individuais que não nos distinguem, só nos tornam mais sós.

IX

Porta fechada = centro retorcido (acesso negado), daquilo que não se pode saber (vedação?). O equilíbrio é espremido, amassado – pendemos sobre nós na Apneia do não saber para onde ir.

IX E MEIO

Um dia alguém disse que os vícios nunca se abandonam, somente se substituem. O corpo deveria entregar-se à terra no estado oposto em que nasceu. ‘Aqui te entrego o meu corpo podre, usado e abusado, putrefacto, repleto de vírus e toxinas do mundo em que passeou. Nele está inscrita a Terra do Tempo e todas as Palavras Lei que para mim criei e que me fizeram morrer mais depressa ou viver mais devagar.’

X

Só porque os números ímpares dão azar.

Gillian Ayres, Distillation, 1957