Um dos meus momentos preferidos num dos meus filmes de animação preferidos — o Ratatouille — dá-se quando a personagem genialmente baptizada de Ego pede ao empregado de mesa uma dose de

perspectiva

uma fresca, clara e deliciosa perspectiva

Por medo que perdesse o encanto, e até porque é o único filme de animação que me faz chorar de cada vez que o vejo e gostava que assim continuasse por me lembrar tão eficazmente da minha humanidade, nunca fui averiguar o que significava isto de perspectiva em culinária. Mesmo agora enquanto escrevo e procuro a expressão exacta na internet desloco os olhos com muito cuidado para não tropeçar na explicação enfadonha. Sempre gostei muito daquela palavra — pers-pec-ti-va — soletrada por aquela figura escura e esguia, e na voz do Carlos Paulo, e ainda gosto, apesar de os últimos anos me terem trazido algumas leituras técnicas e um cepticismo menos infantil.

Pois bem, é desta palavra e desta expressão que quero fazer uso. Sem querer ser moralista mas sendo, acho que precisamos todos de uma dose deliciosa de frescas e claras perspectivas.

A cada porquê gostamos de fazer corresponder uma única resposta. Precisamos de uma direcção, e não gostamos de admitir que um problema ou fenómeno possa ser filho de várias mães.

No caso recente dos incêndios — do qual me sirvo apenas como exemplo — poucos se mostraram dispostos a assumir que o fenómeno pudesse ser multicausal. Povo, políticos e especialistas procuraram com todas as forças uma causa, uma origem, e se a culpa fosse de uma pessoa, ainda melhor, que a empatia também está ao serviço da cólera. Repare-se como foi enxovalhada a ministra entretanto desistente, que mais não foi senão a bochecha para quem-de-direito dar umas valentes lambadas (não obstante a evidente responsabilidade do cargo). Até os especialistas se esqueceram de manter os nervos frios e puxaram raivosamente a brasa ao seu pimento — uns culparam as alterações climáticas, outros o potencial explosivo do eucalipto aka-gasoline-tree, outros os terroristas, outros as máfias, outros os interesses económicos… Alguns mais sensatos ainda disseram que era tudo isto, mas a voz da razão em tempo de guerra é sempre mais baça, e a massa precisa que lhe digam para onde dirigir a fúria e esticar o chicote.

Preferimos a direcção de um só alvo à confusão de dois ou mais alvos igualmente importantes embora distantes e não relacionáveis. Ainda que possamos admitir, em momentos de clarividência, a existência de outras causas para o mesmo problema, sempre haverá uma que se eleva sobre todas as outras, e que é capaz de alimentar sozinha a raiva, o movimento, a paixão.

A “largueza de espírito” oferecida pela perspectiva é certamente abrangente, mas mais fria, e torna-se difícil assumir uma posição e ferver por ela. E nós do que gostamos é de ferver, de explodir, se bem que de forma cada vez mais contida — os nossos gritos agora escrevem-se por zeros e uns. Por outro lado, a perspectiva é uma consciência que se veste como camada crítica*, é  ver as coisas de cima, de um sítio pouco implicado e quiçá demasiado distante para conseguir fazer alguma coisa de útil. Em última análise, não sei o que é melhor, se o fogo da violência ou o gelo da perspectiva.

Respiro, reflicto, e a verdade é que me parece tudo muito morno, anestesiado e apático, por saber-se tudo tão passageiro. A expiação e explicação do sentimento por palavras, no papel ou no computador, arrefece-nos.

 

*Sobre a ideia de camadas críticas, como filtros dos quais nunca mais nos livramos enquanto formos gente e que só nos tornam mais infelizes, ainda hei-de fazer matéria de outro artigo. Já não se consegue ver como dantes.

Frame do filme Ratatouille (2007)